O café mais caro do mundo chama-se Kopi Luwak e é produzido na ilha de Bali. Custa mais de dois mil dólares o quilo. Não vou contar de que maneira ele é obtido para não estragar o romantismo da minha história. (O tio Google conta para vocês.).

Acredite, o café que tomei durante muito tempo, ultrapassa em muito este valor. Muitos vão achar que eu esteja zuando ou coisa parecida. Sou um envelhescente e tenho as minhas razões e contrarrazões para narrar o episódio. Tenho receio que as pessoas caçoem de mim, mas o que aprendi na vida é nunca fugir da verdade mesmo que o orgulho saia todo esgualepado. Nem tanto, é só um pequeno drama. Pois então, vão pensar que agora eu extrapolei quando eu contar que foi lá no Posto Ipiranga. Pior. Foi. Foi lá que durante três anos compareci na “lancheria” do dito posto para esperar a morena de sorriso largo e olhos brilhantes.

Foram longos anos. Meu carro ficava estacionado na rua ao lado. Foi roubado uma vez e o seguro pagou. O segundo foi roubado também, mas não estava no seguro. Olha que era zero bala e de luxo. Comprei para impressionar a morena. Até ostentei a foto, eu e o carrão na internet para fazer um grau, torcendo para que ela visse e desse um like. Ignorou. Não é só isso. Perdi dois empregos, pois chegava atrasado e a chefia não perdoava. Tudo por conta de estar esperando a morena lá no posto Ipiranga. Meus chefes eram todos sem coração, jamais entenderam a minha obsessão. EU mandava Whats, Messenger, entrava no inbox dela, enchia de poesia. Dei boa noite, boa tarde, bom dia, bom sono, bons sonhos, bom isso, bom aquilo, e nada de ela dar um fiosinho de prosa sequer. Ia ao dentista toda semana clarear os dentes, pois estavam escuros de tanto cafezinho; já nem dormia mais por causa da cafeína; meus olhos pareciam dois grãos de café. O posto já tinha trocado de gerente duas vezes, os frentistas já estavam acostumado comigo.

Eles na bomba de gasolina e eu levando bomba da morena. É injusto! Ficava esperando ela chegar, ela parecia que adivinhava e não chegava nunca. Se assédio mental fosse crime, eu pegaria perpétua! Mas agora chega! Depois desses mil dias tentando, vou desistir. Tem alguma coisa de errado comigo. Será que esta criatura existe mesmo ou sempre foi fruto da minha imaginação? Mas eu reconheceria a morena se a visse neste momento, sei que ela é real. Já fui ao neurologista, fiz tomografia e está tudo bem. Nem fui ao psiquiatra, com aquele médico não quero nem papo, é um idoso muito ranzinza, está sempre querendo me enfiar um monte de remédios. “Aqui” pra ele! Mas, ela se faz de tonta, pois sabe que é dela que estou falando. Eu sei que ela está lendo este texto. É muita judiaria o que ela faz com este agora pobre ancião. Para mim chega! Juro que, quando eu ficar bem velhinho, irei bater com a bengala na porta dela e cobrar todos os cafezinhos que ela me fez tomar sozinho. Ingrata! Insensível! Torturadora de idosos!

Passaram-se alguns dias depois da minha decisão, recebi uma carta desaforada:

– Meu caro Sérgio. Sou uma mulher madura e não tenho mais idade pra ser feita de boba. Emenda-te, cumpre com o teu papel, nem parece gaúcho de palavra. Toda vez que tu mandas recado pra mim, eu fico esperando lá no posto, faz tanto tempo que faço isso que o estabelecimento até já trocou de bandeira, antes era Esso agora é Petrobrás. Fiz até amizade com o pessoal de lá. Já passei até vergonha por conta de estar lá sozinha a espera de alguém. Pra mim já chega. Tu és um tratante. E não me manda mais poesia e nem flores. Eu tenho mais o que fazer! E tem mais, meu sorriso não é largo, é amarelo de raiva e os meus olhos estão brilhando de tão brava que estou. Não sou mais morena, pintei o cabelo.

– E aí Sr Clos, está conseguindo ler? Não força a visão! Depois o senhor lê esta carta. Vamos lá que o médico está esperando. Vou preparar o senhor pra cirurgia. Catarata é simples, amanhã o senhor vai ver tudo como muito mais nitidez.

 

SÉRGIO CLOS – ESCRITOR DE PORTO ALEGRE/RS, ARTICULISTA, 63 ANOS, COM FOCO NAS PECULIARIDADES DA TERCEIRA IDADE.